Clipe com o poema "Verso e Reverso de uma Medalha de
Guerra", de Carlos Omar Villela Gomes interpretado por Leandro de
Araújo com o violão de Mário Fontoura.
No clipe aparecem cenas do filme "Neto Perde sua Alma" e das sérias
"Casa das Sete Mulheres" e "O Tempo e o Vento".
A montagem é amadora e sem qualquer pretenção em obtenção de
lucros.
Poema "Verso e Reverso de uma Medalha de Guerra" escrito em sábado 05 setembro 2009 03:18
Respeito escrito em quarta 29 julho 2009 00:32
Ao contrário do que muita gente pensa, os homens que viviam no campo, mesmo nos recantos mais distantes da civilização urbana, sempre foram muito vaidosos. Não a vaidade baseada no consumo ou padrões de beleza como vemos nas comunidades cuja mídia dita as maneiras de vestir e andar, mas uma vaidade relacionada ao meio em que o homem estava inserido e as ferramentas que facilitavam a interação com este meio.
Era vaidade temperada com orgulho. Era a faca que cortava mais, um artefato de couro bem acabado, o cavalo mais rápido, a arma de melhor pontaria, um enxame de abelhas que deu mais mel, o maior peixe pescado em uma pescaria ou outras coisas que para nós hoje não tem significado algum, mas que nos tempos do vô Cungo tinham uma importância cabal.
Sempre via os olhos do vô brilharem quando contava a respeito daquilo que lhe davam orgulho, que o deixava maior ou melhor diante dos amigos ou das comunidades onde estava. Dentre estes “mimos” houve muitos cachorros. Bons de caça ou para a lida do gado, era com uma alegria de guri que contava de casos onde um cachorro afundava no rio agarrado a um capincho e só voltava à tona com o bicho junto. Quantos cães ele teve que valiam mais que uma pessoa no trabalho com a pecuária, ou então que eram apenas bons companheiros para camperear ou para tomar mate no galpão. Dentre tantos animais fantásticos, tinha um que lhe embaçava os olhos sempre que contava de suas proezas. O nome do cão: Respeito.
Respeito foi um dos cachorros que mais tempo acompanhou o vô Cungo. Era tão bom que outras pessoas que viviam no interior de Alegrete costumavam mandar seus cães para ficar alguns dias com ele para aprender a caçar ou lidar com o gado com a mesma eficiência e maestria. Caçava tatus e capinchos como nenhum outro cachorro nas redondezas. Brigava com um “mão-pelada” de igual para igual e, por mais de uma vez, alertou o vô a respeito de cobras venenosas que estavam pelo caminho ou em volta da casa.
Na lida campeira agia tal qual um peão experiente. Na mangueira apartava o gado com apenas um comando de voz. Tropeando, não precisava nem mandar quando uma rês se desgarrava, tratava logo de trazê-la de volta à tropa.
Parceiro de todas as horas, jamais latira para criança nenhuma, muito pelo contrário, era bastante paciente com a gurizada. Costumava deitar em silêncio durante a hora do chimarrão, e à noite era um sentinela vigilante, sempre atento a movimentos estranhos ou ataques dos sorros, os quais já havia matado três que vieram roubar galinhas durante a madrugada.
Resumindo, podia-se dizer que Respeito era a personificação da lealdade de um cão com seu dono.
No entanto, quem vive no campo sabe que convivência entre homens e animais é delimitada por uma tênue linha, que muitas vezes pode se partir sob a menor tensão. Os animais campeiros são funcionais, sejam cavalos, bois ou cachorros. A submissão é necessária, pois muitas vezes há necessidade de algo que vá além da confiança, pois a produtividade do pequeno produtor é essencialmente de subsistência, e qualquer quebra da ordem natural pode representar um prejuízo à família. A relação homem X bicho jamais se sobrepõe ao interesse da estabilidade familiar. Existem casos extremos de histórias de pessoas que tiveram que sacrificar animais de estima para que seus entes pudessem se alimentar, ou então que mataram animais de casa porque estes estavam representando algum risco à integridade das pessoas próximas.
A história do cão chamado de Respeito não termina da forma mais bela, e aqui talvez não caiba julgamento sobre o que seria certo ou errado em seu desenlace, mas uma reflexão a respeito do rígido código de moral e ética que compunha a formação destes homens, mulheres e crianças que viviam em um universo completamente alheio ao que vivemos hoje em dia.
Continuando a história, é de conhecimento de todos que no interior as pessoas têm o costume de “sestear” à tarde, logo após o almoço. Hábito esse que faz parte da cultura destas pessoas desde que existe campo. Visto que depois da sesteada daquele dia o vô Cungo não enxergou o Respeito nas proximidades da casa, logo pairou uma desconfiança no velho campeiro. Nos quatro dias seguintes o fato se repetiu; durante a sesta o Respeito desaparecia, e voltava a reaparecer horas depois. Chegava de cabeça baixa, com o rabo entre as pernas, se enfurnava no galpão e lá ficava como que se escondendo após ter cometido um erro imperdoável.
Vô Cungo não teve dúvida, e naquela sexta-feira chuvisquenta de agosto ficou observando de longe seu cachorro, e seguiu-o discretamente para ver qual o destino de suas fugas diárias. Viu-o entrar em uma grota que ficava há uma centena de metros da casa e mansamente enfurnou-se naquele pequeno universo formado por sombras e verdes. Os olhos do Cungo encheram-se de horror quando viu a cena: embaixo de uma aroeira, Respeito estava envolto em um cenário de sangue, lã e restos de cordeiros recém mortos.
Não há outro destino para cachorro que “corre” ovelhas. A lei do campo é incisiva e cruel: morte. Cungo sacou o revólver (todo campeiro que se preze carregava uma arma consigo) e, não sem antes chamá-lo pelo nome uma última vez, fez fogo duas vezes, silenciando definitivamente aquele que muitas vezes latira em defesa de seu dono. Anos depois da vez em que ouvi esta história, pensei que o fato de tê-lo chamado pelo nome antes de atirar foi uma forma de encará-lo de frente, de não aplicar a pena capital pelas costas, uma forma leal de aplicar a lei do campo.
Não lembro ter ouvido esta história mais de uma vez, mas lembro de que esta foi a única vez que vi meu avô chorar.
A chegada do Érico escrito em quinta 23 julho 2009 06:31
A vida nos prega peças interessantes. Algumas alteram levemente nossa rotina, outras são completamente surpreendentes. Enquanto algumas são tristes, outras têm a capacidade incrível de trazer-nos felicidade nas mais diversas formas. O que aconteceu com a Fabi, minha esposa, e comigo naquele domingo dia 05 de julho de 2009, são daqueles fatos que trazem o máximo que se pode caracterizar como surpresa, e o extremo de felicidade. É sobre isso que gostaria de conversar com vocês hoje.
A história passa-se em uma única noite, mas que não tenho como torná-la crível sem trazer alguns elementos do passado, vou começar trazendo algumas informações importantes para o entendimento dos leitores.
A Fabi e eu, que somos casados há nove anos e meio, há muito tempo conversamos sobre quando seria o momento ideal para termos nosso primeiro filho. Há cerca de três anos decidimos parar com todos contraceptivos. Infelizmente descobrimos que sem um longo tratamento não poderíamos ser abençoados com um herdeiro, pois um problema nos ovários da Fabi impedia a ovulação. Encaramos este fato como um “contratempo”, e começamos um tratamento que sabíamos ser longo e, talvez, ineficiente. Mas nunca deixamos de acreditar.
Não apenas em função do tratamento, mas também por motivos preventivos, a Fabi fazia exames ginecológicos periódicos. Inclusive, em maio, fez um exame de toque e um pré-câncer (que coletou material intra-uterino), onde não foi constatada nenhuma alteração fisiológica. SUA GINECOLOGISTA NÃO CONSTATOU NENHUMA ALTERAÇÃO FISIOLÓGICA.
Estes últimos nove meses foram intensos. Como não havia nada aparente que impedisse, fizemos uma viagem no verão que tomou boa tarde de nossas energias e todas nossas economias, fomos ao Sulfolia onde andamos pulando em volta dos trios elétricos, no final de março fomos ao Beto Carrero e andamos em todas as montanhas-russas, a Fabi assistiu um jogo do seu Grêmio no Olímpico com direito a fazer quatro “avalanches”, em abril fomos a um baile e dançamos toda noite, e por aí vai. Até um remédio fortíssimo para tratamento de emagrecimento, a Subtramina, a Fabi tomou durante três meses seguindo orientação de ginecologista que afirmava ser impossível uma gravidez naquele momento. Tudo muito natural.
Durante as últimas três semanas de junho sentimos que alguma coisa estava estranha com a Fabi, principalmente na região abdominal. A Fabi há anos tentava emagrecer sem sucesso, mas estava de certa forma animada, pois nos últimos nove meses realmente havia perdido alguns quilos, no entanto, nas últimas três semanas sentia certo enrijecimento estranho no abdome. Foi neste momento que resolvi intervir e na quinta-feira, dia 2 de julho, comprei um exame de gravidez (desses que se compra em farmácia), deixei em casa e saí para trabalhar. À noite, enquanto trabalhava em uma palestra na escola onde trabalho, recebi uma mensagem no meu celular: “Me liga agora!”
A palavra “AGORA” tem uma força incrível, principalmente depois de quase dez anos de casamento. Liguei e a Fabi me pediu que na volta do trabalho passasse em uma farmácia e comprasse um novo exame, de outra marca, pois aquele tinha dado positivo. Nem pensei... saí da escola ensandecido, passei em outra farmácia e comprei um novo exame, que retornou o mesmo resultado. Foi uma alegria indescritível, pois parecia que nosso sonho antigo estava tomando forma. Já na sexta-feira fomos à clínica onde mantemos nosso plano de saúde e fizemos um exame de sangue, que teria seu resultado na segunda-feira, dia 06 de julho.
Começamos os cálculos: se há pouco mais de dois meses uma ginecologista fez um exame invasivo e recolheu material do útero sem constatar gravidez, então ela deveria estar grávida de uns dois meses, três no máximo. Mesmo com toda empolgação, tentamos manter a serenidade até que o resultado do exame de sangue trouxesse a confirmação final que nos daria pelo menos seis meses de trabalho e preparação para chegada do bebê.
No sábado, dia 04 de julho tentamos manter a normalidade de nossas vidas. Está certo que pela manhã conversamos muito sobre como faríamos as mudanças na casa, a construção do quarto do bebê, a aquisição de roupas e móveis. Fomos ao cinema à tarde e à noite fomos à casa de minha sogra para comer uma pizza e conversar sobre os exames que fizemos e da expectativa para o resultado que chegaria dois dias depois.
Por volta da meia noite, quando voltamos para casa, nossa vida teve a maior reviravolta do mundo.
Havia passado poucos minutos da meia noite, e já estávamos no domingo, dia 05 de julho. A Fabi se preparava para tomar seu banho quando a ouvi gritar e corri para o banheiro. Ela tremia e chorava enquanto uma grande quantidade de água escorria por suas pernas. Imediatamente liguei para minha sogra (que é mãe de quatro filhos) se aquilo era normal em uma gestante de dois meses e ela me alertou que voasse até um hospital, pois provavelmente se tratava de um aborto espontâneo. Liguei para meu plano de saúde, que está quase falindo e não tinha hospitais próprios para atender, e esta me recomendou que a encaminhasse ao Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, pois os atendimentos de emergências obstétricas só seriam feitos lá. Levei aproximadamente uns vinte minutos de Esteio até o hospital. A Fabi chorando muito, extremamente nervosa e vomitando.
Quando chegamos ao hospital, a Fabi foi prontamente atendida e, enquanto fui fazer a papelada para o atendimento, ela foi encaminhada para exames iniciais. Foram os trinta minutos mais longos da minha vida, pois ainda tive que esperar outro atendimento que já estava sendo encaminhado antes do nosso. Após a papelada preenchida subi o mais rápido possível ao Centro Obstétrico no terceiro andar do hospital. Quando cheguei, a imagem foi assustadora.
A Fabi estava deitada em uma cama de uma salinha de exames. Sua expressão, com o rosto branco, os olhos e a boca escancaradas me gelaram. Só então reparei que havia uma enfermeira ao seu lado, e esta olhava para mim e sorria.
Como assim sorria??? - foi meu primeiro pensamento. Essa mulher deve ser doida!
- Por favor, me conta o que está acontecendo com a Fabi.
- Ela está com dois centímetros de dilatação e entrou em trabalho de parto. O bebê vai nascer nesta noite.
- Como assim? Que bebê? Então ela realmente perdeu o bebê e vocês vão retirar o feto morto, é isso?
- Não, ele está bem vivo, e com no mínimo oito meses e meio de gestação.
Após essa notícia bomba, que nos trouxe uma mistura de choque e felicidade indescritível, fomos encaminhados à sala de ultrasonografia, onde vi pela primeira vez nosso filho. Infelizmente não pudemos ver o sexo em função da posição em que ele se encontrava, mas já tivemos a primeira informação a respeito de sua saúde, e era positiva.
Passei a noite ao lado de minha esposa, que chorava muito com medo de alguma má formação do feto e pelo fato de não ter feito qualquer acompanhamento durante a gestação. Sem contar os excessos que cometemos, justamente por acreditarmos que não havia gravidez.
Às oito horas da manhã o obstetra que faria o parto chegou ao hospital e examinou a Fabi. Como não houve qualquer evolução da dilatação, sua sugestão para minimizar o sofrimento e a espera foi a realização da cesariana, o qual concordamos imediatamente.
Às nove horas entramos para o bloco cirúrgico obstétrico. Nove horas e vinte e seis minutos da manhã nasceu o Érico, pequenino com seus 2235 gramas e 45 centímetros, mas saudável e lindo.
Aquela noite foi uma noite realmente impressionante. Ligar para as pessoas de nossa família e convencê-las de que um bebê estava nascendo foi algo realmente estranho. Assim como foi estranho ver o bebê sair do berçário para a sala de recuperação sem ter um par de meias para vestir. Graças a Deus temos muitos amigos, o que garantiu um enxoval completo já na saída da mãe e do bebê para o quarto da maternidade. Havia pelo menos cinqüenta pessoas na sala de espera.
Hoje, não nos resta outra coisa senão agradecer a Deus e a todas as pessoas que nos assistiram nesses momentos iniciais do Érico. Sempre achei que uma pessoa não é nada sem amigos, e o nascimento deste anjinho nos mostrou isso. Somos pessoas felizes porque nos amamos, temos um filho lindo e temos amigos, muitos amigos.
Festa Junina ou Festa Caipira escrito em sexta 29 maio 2009 06:37
Por que, existe a cultura do “caipira” em nossas Festas Juninas?
Estudando o termo, percebemos que ele se refere a qualquer tipo humano do interior, normalmente de área rural. De acordo com o dicionário Koogan/Houaiss, caipira significa “Homem da roça ou do mato; matuto, capiau. /Pessoa tímida e acanhada. / Jogo de parada com um só dado ou com roleta, entre pessoas humildes.” Já no dicionário Antônio Olinto de Língua Portuguesa, a definição de caipira é “Habitante do campo, do interior. / roceiro, caboclo. / indivíduo tímido, acanhado”. No dicionário Aurélio encontramos “Habitante do campo ou da roça / diz-se de caipira sin. ger. jeca, matuto, roceiro, caboclo, capiau ou taboréu”. Ou seja, a expressão refere-se genericamente às pessoas ligadas ao campo, geralmente em pequenas propriedades (ou empregados de grandes propriedades), de poucas letras e pouca vivência urbana. Ora, este tipo é encontrado em todo Brasil, não necessariamente precisa figurar como o imortalizado por personagens como “Jeca Tatu”, de chapéu de palha, calças remendadas e camisa xadrez.
A palavra “caipira”, como é definida vocabularmente, é encontrada em qualquer região brasileira, respeitando suas características físicas, culturais, históricas e geográficas. Ligar a expressão “Festa Junina” a “Festa Caipira”, por si só já é um erro crasso, no entanto, pior ainda é ligar a expressão “caipira” à imagem estereotipada pela mídia do homem do interior, maltrapilho, ignorante e ingênuo. Estudos dos tipos regionais brasileiros já comprovaram que a falta de letras por parte do homem do campo não significa ignorância ou falta de capacidade de aprendizado, ao contrário, o conhecimento que detém é específico e suficiente para sua sobrevivência no meio em que se encontra. A classificação de “caipira” que nos é imposta pela mídia é exatamente contrária, retratando-o como um incapaz.
Várias teorias tentam explicar a introdução desta paródia de caipira em nossas festas juninas (digo “paródia”, pois os trajes usados nas festas juninas imitam toscamente apenas as roupas dos interioranos dos estados de São Paulo e Minas Gerais). Porém uma das explicações é a que traz uma força histórica muito grande:
A Revolução de 1930 e, principalmente, o golpe do Estado Novo em fins de 1937, foram responsáveis pela difusão impositiva do sentimento de brasilidade. Através desta agitação política, buscava-se concretizar cultural e ideologicamente a formação de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente subjugados os sentimentos regionais.
Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que “ameaçava a unidade nacional brasileira”. Em gesto simbólico mandou queimar as bandeiras regionais publicamente, ardendo entre elas, o pavilhão criado por seus antigos ídolos, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, em 1891.
Em seguida, o Estado Novo promoveu a chamada “invenção da cultura nacional”, como fundamento da identidade nacional imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção brasileira de futebol; nacionalizou o carnaval e o samba, as festas juninas aos moldes do sudeste brasileiro; incentivou o nascimento de arquitetura moderna brasileira; estimulou a produção musical dos temas centrados na região do “Café com Leite”. O mais curioso, é que vinha descansar em suas estâncias no sul, onde era fotografado de bombacha, tomando mate e montando à cavalo como um verdadeiro caudilho. A “invenção da cultura nacional” foi uma medida política e repressiva, que buscava esmagar a cultura regional para que, desta forma, não se abrisse precedentes a novas manifestações antigovernistas. O resultado desta centralização e imposição cultural foi o início da massificação da cultura da região sudeste, que até hoje é vendida ao mundo como sendo a verdadeira e única cultura brasileira.
Podemos afirmar que até 1930 a expressão “Festa Caipira” sequer existia e também que as Festas Juninas já aconteciam na região sul do Brasil, invocando suas particularidades culturais próprias, desde que essa região começou a ser efetivamente povoada, em 1737. Se em duzentos anos de História festejou-se as datas juninas, e seus respectivos santos, através da particularidade regional de cada povo, incentivar a realização de festas caipiras, fantasiando nossas crianças de forma que ridiculariza o homem do interior, transformando-as em imitações de pequenos paulistas ou mineiros, é aplaudir o maior erro do governo de Getúlio Vargas, que tentou esmagar através da força despótica toda herança cultural regional. É lamentável, mas continuamos sendo governados por decisões arbitrárias, que há 75 anos promovem a centralização da cultura nacional, ditando através da mídia o que devemos vestir, comer ou ouvir.
Mas como tentar reverter esta situação? Se continuarmos aprendendo que em “Festa Junina” nos fantasiamos de caipira, na Semana Farroupilha nos fantasiamos de gaúcho e no carnaval nos fantasiamos de qualquer coisa, continuaremos tratando nossa cultura como “coisa de grosso”.
A consciência de que ao vestirmos a indumentária gaúcha não estamos nos fantasiando de gaúcho, mas vestindo um traje histórico, que representa toda a identidade cultural de um povo, sua história e cultura, não deve ser imposta, mas ensinada. Respeitar a cultura regional é respeitar a própria origem, as raízes que sustentam toda organização social vigente. Com o coração triste, mas pilchado, acompanharei mais um ano onde a televisão nos enfiará goela abaixo músicas e roupas “caipiras” em detrimento da cultura regional. Pois assim, ouvindo e vendo os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, cegando o povo, fica muito mais fácil vender novelas, músicas e informações. Desta forma, cada vez mais “Piriguétis” e “Tô Ficando Atoladinha” farão parte da cultura musical de nossos filhos.
No mais, era isso.
Leandro de Araújo:.
leandro@aquecimentocenico.com.br
O Piá escrito em sexta 22 maio 2009 16:08
O interior do Rio Grande do Sul é formado por grandes áreas rurais que circundam pequenos (está certo, alguns não tão pequenos) centros urbanos. Este mar verde é dividido em propriedades, algumas pequenas, outras gigantescas. Em todas elas, sem exceção, há um piá. E esta história, é sobre um destes piás.
O pequeno Januário corria na volta das casas ajudando na lida. Dava “bóia” pras galinhas, buscava lenha pro fogão. Voava a cavalo quando um recado urgente precisava levar.
Nos raros momentos que se permitia brincar, principalmente na hora da sesta dos “grandes”, virava adulto também: tropeava e parava rodeio com gado de osso, marcava, castrava e curava... Domava cavalos imaginários – as varas da mangueira viraram tropilhas inteiras, todas amansadas a laço por seu rebenque de meia.
Na campanha se levanta muito cedo e a rotina de um menino inclui atribuições e responsabilidades. Buscar as vacas de leite pra embretar na mangueira era o primeiro ofício do dia do pequeno Januário. Cedo mesmo, porque enquanto a peonada ia acordando, pra tomar o primeiro mate, alguém da cozinha já ia de balde em punho pra lida da ordenha.
Quando entrava no galpão, a roda de mate já estava formada. Olhos e ouvidos atentos. O capataz ia falando das coisas que tinham pra fazer naquele dia. Os olhos do piá fixos na cuia, que passava de mão em mão. Quando chegava a sua vez, a cuia passava ao largo. A peonada olhava pra ele de mãozinhas estendidas. Davam risadas amigas, passavam a mão na sua cabeça e diziam que quando ele fosse "mais grande", tomaria mate junto com os gaúchos. Aquilo se repetia todos os dias.
Depois que a peonada encilhava seus cavalos e saía para a lida, ele pegava a cuia com a erva lavada, a água morna e servia um mate escondido. Depois do café pegava o petiço e se tocava a trote para o colégio rural. Em seu pequeno coração a esperança de que o próximo dia seria diferente. Que suas mãos pequeninas ganhariam a cuia, e aqueles velhos gaúchos, que tanto admirava, o veriam como um igual.
Mas por que tinha que esperar?
Ele não levantava tão cedo quanto os peões? Não lidava na mangueira?
Dava comida pros bichos, ajudava no banho das ovelhas, descascava "pêsco" pra fazer passa...
Então por que não podia matear?
Em uma noite fria de julho, o piá não conseguiu dormir. Deitado em sua cama com os olhos aberto, repetia as perguntas e não achava respostas. Ele sabia que não era “grande”, mas era tão gaúcho quanto os demais.
Madrugada alta! O frio do inverno parecia que encarangava até a chama da lamparina de querosene.
Januário levanta, se enrola num poncho velho e, passos miúdos, vai direito a invernada onde as vacas posavam. Elas se assustam, acostumadas a serem tocadas mais tarde, mas logo baixam a cabeça e se vão rumo à mangueira. Os pés do piá, quebrando a geada, pisavam firmes como se quisessem esquecer o frio. Aquecer o medo... Medo de ser pego "fazendo arte". Ao longe, um urutau cantava sua cantiga triste.
Depois, pé-ante-pé entra no galpão. Sorri ao ouvir os roncos da peonada que dorme no alojamento.
Onde até pouco tempo havia um fogo de chão, agora apenas cinzas e um pai-de-fogo sem qualquer sinal de calor. Calmamente encosta palha de milho e gravetos. Sabia como principiar um fogo, pois já fizera isso várias vezes em sonho.
Um pau de lenha... outro pau de lenha...
Onde estão os fósforos? Dentro de uma gamela quebrada, junto de palha e fumo em corda...
As mãozinhas tremendo, os dedos arroxeados de frio.
“Acende palha! O frio não deixa... agora vai... ACENDEU!”
Na tina de barro enche a cambona com água... Água gelada, parece que corta!
O fogo começa a aquecer o galpão. O coração do piá se aquece também...
A cuia, a erva tombando, a água esperta.
“Incha logo erva!” Até a água sumir, parece que passaram horas...
Agora só falta a bomba, tapando o bocal...
“Pronto!”
A água na cambona começa a chiar e a mãozinha pequena, no cabo de arame, nem sente que queima!
Enche bem a cuia, igualzinho os peões...
Lá fora os galos começam a cantar, anunciando mais um dia de inverno. Dos olhos do piá, rolam lágrimas quentes. Como quente é o mate que ele sorve com gosto. O salgado da lágrima e o amargo do mate.
A doce revelação: “EU JÁ SOU UM GAÚCHO!” E aquele é o melhor mate que as mãos de um gaúcho já fizeram no mundo...
Quando a peonada da estância começa a se movimentar - caras amassadas em direção ao galpão - encontram o piá mateando solito, em silêncio. Os olhos molhados, olhando pro fogo.
Nenhum disse nada. Não ousaram falar.
Nenhuma risada, nem mãos acariciando os cabelos revoltos.
Sentaram na volta e aceitaram o mate que o piá alcançou. As mãos pequenas do pequeno homenzinho passavam a cuia. Entre aqueles peões rudes, de caras surradas e sérias, uma certeza:
Ali não mais um piá, mas um GAÚCHO afinal.
Leandro de Araújo.'.
leandro@aquecimentocenico.com.br

